Bichos que Você
Vê em Fortim
Em Fortim não é preciso entrar na mata para ver bicho. Saguis passam pelos galhos dos quintais, gralhas barulhentas descem aos comedouros e pássaros de peito amarelo vigiam dos fios de luz. Este guia mostra os que mais aparecem na Barra do Fortim, como reconhecer cada um e o cuidado que vale para todos: olhar de perto, mas sem tocar nem alimentar.
O sagui-do-nordeste, morador dos quintais
O bicho que mais surpreende quem chega a Fortim é o sagui. A espécie daqui é o *Callithrix jacchus*, que a ficha do ICMBio chama de sagui-do-nordeste ou sagui-de-tufo-branco, e que também atende por mico, mico-estrela e, no interior do Ceará, soim. Os tufos brancos que saem das orelhas são a marca mais fácil de reconhecer.
Ele não está fora do lugar: o Ceará faz parte da área de ocorrência natural da espécie, junto com Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Vive na Caatinga e na Mata Atlântica do Nordeste, inclusive em restinga, e se adapta bem a áreas rurais e urbanas. Por isso aparece tanto nas árvores das casas e pousadas da Barra do Fortim.
É pequeno: um adulto selvagem pesa em torno de 300 gramas. Anda em grupo, que costuma ter de 3 a 15 indivíduos, com média de uns nove. Quando um passa pelo galho, quase sempre outros vêm atrás, um de cada vez, pulando de árvore em árvore.
Por que não dar comida ao sagui
O sagui é simpático e chega perto, e a vontade de oferecer uma fruta é grande. A Secretaria da Saúde do Ceará pede o contrário: evite o contato, sem alimentar nem fazer carinho. Como é bicho silvestre, o sagui não pode ser vacinado, e ele é um dos transmissores da raiva no estado.
Não é um risco teórico. Em fevereiro de 2025 o jornal O Povo noticiou um caso de raiva humana em Jucás, no interior do Ceará, o sétimo registrado no estado desde 2008. A paciente foi a quinta desse período a pegar a doença depois de uma mordida de soim. Sagui acostumado a ganhar comida perde o medo, chega mais perto e morde com mais facilidade.
Se acontecer uma mordida ou um arranhão, lave o local na hora com bastante água e sabão e procure o posto de saúde mais próximo. Lá avaliam o caso e, se for preciso, aplicam a vacina e o soro. Um sagui com jeito estranho ou sozinho, longe do bando, deve ser avisado à Secretaria Municipal de Saúde.
A gralha preta e branca de olho amarelo
Se duas ou três aves barulhentas descem no comedouro, é bem provável que seja a gralha-cancã (*Cyanocorax cyanopogon*), também chamada de cancão. Nas fotos feitas na Barra do Fortim ela aparece preta na cabeça e no peito, com a barriga branca e o olho amarelo vivo. É da família dos corvos.
É uma ave que só existe no Brasil, típica do semiárido nordestino, onde vive na caatinga e em matas mais abertas. Come de tudo: insetos, ração quando acha e até o fruto do mandacaru. A Wikipédia a descreve como muito curiosa e barulhenta, a ponto de dar alarme quando algo diferente aparece por perto, e por isso ela costuma ser ouvida antes de ser vista.
Suiriri nos fios e anu-preto em bando
O passarinho de cabeça cinza e barriga amarela que fica parado num fio ou galho alto, olhando em volta, tem tudo de suiriri (*Tyrannus melancholicus*). Ele vive em áreas abertas com árvores, jardins e beiras de estrada, escolhe um poleiro alto e sai em voos rápidos para pegar insetos no ar, voltando logo depois.
Outra ave fácil de ver nos terrenos abertos é o anu-preto (*Crotophaga ani*): todo preto, com cauda comprida e um bico alto e achatado dos lados. Anda em bandos de 6 a 15 aves, caça gafanhotos e outros insetos no chão e gosta de tomar sol de asas abertas depois da chuva. Os casais às vezes dividem o mesmo ninho e criam os filhotes juntos.
Pássaro preto aparece em vários formatos por aqui, e nem todo é anu. Se não der para ver o bico e a cauda direito, vale fotografar e conferir depois num guia de aves.
Louva-a-deus, marimbondos e o mangue
Quem presta atenção nos detalhes acha também os bichos pequenos. O louva-a-deus aparece em mesas, varandas e plantas, parado com as patas da frente dobradas, e rende boas fotos de perto. Já os marimbondos fazem ninho preso em folhas e beirais: olhe de longe e não mexa, para não levar ferroada.
Perto do rio a fauna muda. O mangue do Jaguaribe é a casa do caranguejo-uçá e berçário de peixes e camarões. Esse mundo tem um artigo só dele: o do manguezal do Rio Jaguaribe.
Dicas para observar sem atrapalhar
As fotos deste artigo foram feitas em Fortim e estão na galeria do site. Para mais lugares bons de câmera, veja o guia de onde fotografar em Fortim.
- Vá no fresco: no começo da manhã e no fim da tarde dá para ficar parado esperando sem sofrer com o sol.
- Procure árvores e sombra: os quintais arborizados da Barra do Fortim concentram boa parte dos bichos.
- Fique quieto e espere: cada grupo de saguis vive numa área de poucos hectares, então costuma passar de novo pelas mesmas árvores.
- Zoom em vez de aproximação: use o zoom do celular ou um binóculo; não corra atrás nem tente pegar.
- Nada de comida: não alimente sagui nem ave silvestre, e nunca leve um bicho para casa.
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